terça-feira, 18 de setembro de 2018

Cartinhas na floresta de cogumelos





Levar essas cartinhas e sonhar. Era assim que a raposinha passava pela floresta mágica de cogumelos, lá no meio das árvores se preparando para a primavera. Com um aventalzinho de piquenique, porque mandar cartas distantes também era um piquenique perto, tudo são questões essas de imaginação. Lá no meio das árvores, uma caixinha vermelhinha que também lembrava um cogumelo da floresta, ficava esperando as cartas que seriam enviadas, um passarinho carteiro as pegaria no fim de tarde.  Raposinha escrevia cartas como quem planta flores e espera primaveras, com sua letrinha miúda, construía versinhos nos papéis sonhadores. E quando colocava sua cartinha delicadamente, voltava para casa cantarolando um versinho:

“Pela floresta ando
sendo um conto de fadas.
Pela floresta sonho
sendo uma cartinha encantada.
Entre árvores que esperam primaveras,
cogumelos de fadinhas de lá.
Aqui serena e canta meu coração
que rima com muita simplicidade
como as folhinhas no chão". 

Entre rimas de serenidade, a raposinha chegava em casa, preparava um chá quentinho, comia um pedacinho de torta caseira e sentava na sua poltrona. Abria mais um livro de versos, e deixava as palavras cantarem agora em silêncio dentro de si, com o doce cheirinho dos carvalhos entrando pela janela, pois morar em floresta é suspirar árvore. 

domingo, 22 de julho de 2018

Encantos da Floresta


Seu coração é como uma coelhinha selvagem primaveril. 
Há girassóis e doces frutinhas silvestres, 
pulsa veloz e macio 
como passos entre as árvores verdes. 
Tens um coração guardador de primaveras esquecidas.




Seu coração também é espelho da floresta,
só os lagos mais longínquos
dos bosques ancestrais de carvalhos
conseguem refletir as palavras que existem dentro dele,
recitar e cantar como poema e canção. 



Seu coração é ursa das montanhas 
e da constelação. 
Há perfume de lavandas 
e as abelhas pousam para contar histórias 
de outros campos floridos ao leste. 




Seu coração por fim adormece
e guarda margaridas.
Como uma raposa da floresta,
protege as flores quando elas dormem 
e cuida de seus sonhos.




És algum encanto da floresta
e no seu coração mágico 
as folhas e flores,
e silenciosas raízes,
vem em ti repousar. 



sábado, 23 de junho de 2018

Alpha


Sempre me disseram que a lua era perigosa, e eu nunca acreditei. Diziam que ela ainda era mais perigosa para quem tinha a cabeça lunática e secreta, para quem guardava pensamentos enluarados dentro do coração. Uma coisa é guardar luares dentro da cabeça, outra coisa são guardá-los dentro do coração. De repente quando você sente seu palpitar, ele lança reflexos sobre ti, sua pele toda começa a exalar lua.
Olhei para a lua crescente pela primeira vez e ela me sorriu, formava um sorriso cheio de estrelas no céu, eu sorri novamente e respondi:
- Óh lua querida dos céus! Quem dera eu pudesse ter asas nos meus pés para chegar mais perto de ti.
Alguém, porém, ouviu a minha voz, e disseram-me:
- Esqueça a lua menina, ela é coisa de deusas que não existem mais.
A lua cresceu tornando-se cheia, eu a olhei pelas árvores, as raízes e os galhos não diriam a ninguém que eu olhava para o luar, mas alguém viu meus olhos e disseram-me:
- Esqueça a lua menina, ela é coisa dos lobos da floresta.
A lua foi ficando mais pequenina e meu coração também. Apesar disso, consegui escutá-la nas águas, o riacho não diria a ninguém que eu escutava a lua, porém alguém sentiu meu pensamento e meu escutar e disseram-me:
- Esqueça a lua menina, ela é coisa do espaço.
Mas não é fácil esquecer a luz quando ela já entrou em você, quando já iluminou todos os seus sentidos. A lua sumiu, e eu queria procurá-la. Será que eu podia sair à sua procura?
Fui, segui, fui mesmo assim, fui como quem canta nas florestas e encanta montanhas, queria achar o lugar mais alto para encontrar a lua. Achei um bom urso na floresta de pinheiros pelo caminho.
- Bom urso, você pode me ajudar a encontrar a lua? – perguntei.
O urso olhou para os céus e a lua novamente sorria, achei que era bom sinal, um jeito dela dizer que me esperava.
- Ajudo menina – respondeu o urso – Vou lhe mostrar a montanha para onde vou quando o inverno chega. Lá é tão alto que as estrelas fazem cócegas nos cílios quando adormecemos.
O urso como um bom amigo, me deu a mão e me guiou pela floresta, até avistar as montanhas.
- É lá menina, só não posso ir até lá com você agora, só vou para lá quando o inverno chegar.
Segui viagem com a lua cheia em meus caminhos, brilhante a iluminar cada pedrinha. Quanto mais subia a montanha mais estava perto da querida lua. Cheguei ao topo e as estrelas realmente faziam cócegas nos cílios, tal como o amigo urso havia falado. Mas a lua ainda estava distante.
- Óh lua querida, me dê uma chance de lhe encontrar, disseram-me que tu és coisa de deusas que não existem mais, de lobos da floresta e do espaço, mas sei que também é coisa de mim, já que no meu coração você está e ilumina tantos.
A lua com grande carinho soltou uma pequena pedrinha de si mesma e entregou para a menina, que emocionada por ter um pedacinho brilhante da lua, fez belo colar e guardou dentro do peito. A menina acabou adormecendo na montanha, tendo sonhos lunares e estelares. Quando acordou a chuva caía, e o pedacinho da lua continuava ali no seu colar.
Voltou então com a parte da lua. Quando chegou ainda gostavam de lhe dizer que tudo não havia passado de um sonho, que ursos não falam, que estrelas não fazem cócegas nos cílios e que a lua jamais podia dar um pedacinho de si mesma, que lua nem tinha pensamento para isso. Mas a menina já não mais se importava que ouvissem o que falava, que vissem para onde ela olhava ou que escutassem o que ela escutava em pensamento, ela não mais apagava nada de seus sentidos. Como uma deusa, como um lobo e como um espaço, ela havia se tornado alpha do seu sonhar.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Para o Outono



A coelhinha esperava o outono com magia, para se vestir em cores mostardas, colocar sua calça marrom como as folhinhas que iriam chegar, seus sapatinhos com meias, sua caneca quentinha no colo e pensamentos quentinhos no coração, daqueles pensamentos que também são voadores, que são folhinhas dispersas se espalhando, caindo e fazendo cócegas na barriga, e de repente a esperança ganha outra cor, outros dias e outras histórias.