quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Uma carta para a Ovelhinha

 


Todos os dias, a ovelhinha encaracolada passava pela floresta, atravessava o campo, subia a pequena montanha, repirava o jardim e chegava à caixinha de correio. Lá um passarinho havia feito um doce e pequeno ninho, o que incomodou demais a ovelha. Ela pensava que se deixassem uma carta para ela, o passarinho poderia pegar e sair voando com ela.

Mas a carta que a ovelhinha tanto esperava nunca chegava, e a tristeza pela carta que nunca chega é difícil, e um dia perto da caixinha ela começou a chorar.

- Porque chora tanto? – perguntou o passarinho.

- Espero uma carta que nunca vem – disse ela.

- Como pode esperar por algo que sabe que nunca vai vir?

- Eu não sei – disse a ovelha pensando – só sei que se eu não esperar, vai ficar mais difícil chegar não é? Eu queria tanto um dia receber uma carta!

- Não entendo, o que tem assim de tão especial em uma carta?

- Eu li que cartas são como um presente de amor, que quando alguém ama muito você, respira fundo e escreve uma bela cartinha poética. Acho que ninguém me ama.

- Devem amar sim, logo uma carta deve chegar pra você – disse o passarinho só tentando animar a ovelhinha. No fundo ele não entendia muito bem de cartas, também nunca havia recebido uma, e só fizera seu ninho ali na caixinha de correio porque era bem quentinho.

A ovelhinha encaracolada enxugou as lágrimas e foi para casa. Continuou sua caminhada de todos os dias pela carta tão esperada. Começou a conversar muito com o passarinho que antes não simpatizava. Ela já estava gostando do pequenino ser e seu ninho entre as cartas que nunca eram para ela.

- Você é tão azul! – dizia a ovelhinha.

- E você se parece com uma nuvenzinha, eu gosto de nuvens, sempre vou até o céu vê-las! – dizia ele.

E cada dia gostavam mais um do outro.

Certa vez choveu sem parar, a chuva riscava toda a floresta com fiapinhos constantes de águas sonhadoras, e a ovelhinha enfim pensou “gosto tanto daquele passarinho, e a chuva é tão bonita, acho que vou escrever uma carta para ele”.

E escreveu. Pegou um papel azul bonito e começou a escrever muitas palavras bonitas como poesia. Colocou em um envelopinho e o lacrou com uma cerinha vermelha, como seu coração.

Depois de tudo pronto, pegou seu guarda-chuva e foi caminhando para a caixinha de correio. O passarinho estava aconchegado lá dentro para se proteger da chuva, ele estava dormindo silenciosamente. A ovelhinha encaracolada colocou então a cartinha bem perto dele sem fazer nenhum barulho e foi embora.

Quando amanheceu, o sol douradinho na grama se estendeu, e ali do ladinho da ovelhinha, estava uma carta bem pequenina. Ela sorriu tanto e tanto, e começou a ler as palavrinhas do passarinho.

E a carta que tanto buscava chegou até ela cheia de asas, finalmente a encontrou, quando ela também encontrou um amigo que lhe despertou a vontade de escrever. A carta era tão bonita, e ela agradeceu por toda a sua espera, todas suas idas na caixinha do correio. A carta, tão preciosa carta, ah seu coração deveria ser feito de cartinhas de passarinhos! Ela realmente se sentiu uma nuvenzinha no céu.



quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Um livro poético sobre esquecer e voar

 



Um passarinho será salvo de forma poética e mágica em “Um sótão de coisas esquecidas, uma ratinha medrosa e um passarinho voador”, livro que escrevi e ilustrei e que está disponível de forma digital no kindle da amazon. Sim, digital apenas, por enquanto, mas espero um dia vê-lo também em forma física, na mão de leitores, sendo lembrado e acolhido, quem sabe. Convido a todos que se interessarem em passar lá na amazon, o valor dele é R$12,00 no Brasil, e para cada país tem o seu valor lá também, sei que por aqui tem pessoas de outros lugares que me acompanham e podem adquirir também. Você não precisa ter o aparelho kindle para realizar a leitura, ela pode ser realizada também no computador e celular, deixo o link logo abaixo para adquirir, assim como a capa do livro e uma breve apresentação dele. O livro é ilustrado de forma simples em nanquim com imenso carinho. As ilustrações são apresentadas em forma de fotografias, foi a maneira que encontrei de ter uma imagem relativamente boa, já que ando com dificuldades de poder melhorar esse aspecto mais digital mesmo, espero que mesmo assim ele apresente qualidade e que vocês possam gostar. Agradeço já todo carinho e fico muito grata por quem puder adquirir e ler, e me dar também um feedback do que achou! 

Link do livro: ebook kindle



"Um sótão abriga uma Ratinha do medo, e ali ela descobre um mundo pequenino de coisas esquecidas, e passa a viver em seu imaginário, costurando vestidinhos e dançando em bailes consigo mesma. Um dia, depois de chuvas e pensamentos, um passarinho aparece na janela, fica ali sem se mexer, machucado. Apesar do medo, a Ratinha abre rapidamente a janela, e resolve cuidar daquele ser, que com asinhas estreladas e poesia, mostra que ainda é possível voar, que é possível lembrar, mesmo esquecida. Que a cura muitas vezes é um cantinho silencioso, que aprofunda os sonhos das asas". 



quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Hans Christian Andersen e algumas flores poéticas




Três contos de Andersen têm flores e um lugar especial em meu coração, na verdade muitos contos dele tem a mágica presença floral e moram em meus mais doces pensamentos, e ainda farei um post especial com outros dois contos com nomes de flores que guardam muita poesia, mas por agora quero falar desses. “O anjo” conta a história sobre uma criança que está a viajar ao céu com um anjo. Toda criança ao morrer é levada pelos anjos para passear voando pelos lugares que gostou, e levam flores para que Deus possa lhes dar vida em um abraço no coração lá no céu, e assim as flores recebem voz e cantam em um grande coro, crescendo mais lindas no mundo celeste do que na terra. O menino escolhe uma roseira que estava quebrada, e o próprio anjo pede para ele levar uma florzinha seca em um vaso, revelando depois que antes de ser anjo foi um menino, e que aquela florzinha era dele e lhe dava felicidades sempre florindo quando esteve doente. 




No conto “Cinco grãos de uma só vagem”, uma ervilha cai perto da janela de uma menina que estava doente, crescendo e dando uma pequenina flor que renova suas esperanças. Uma pequenina flor que recupera a saúde, que acalenta os olhos, como se fosse a flor mais preciosa dessa vida, que traz uma pequena e terna alegria. É como se a alma da menina acabasse se ligando com a flor, voltando a querer florescer. 


Em “As flores da pequena Ida”, a menina escuta uma história que as flores ficam murchas por estarem cansadas, pois durante a noite, todas as flores dão um lindo baile. Ida acredita e até presencia um baile floral, com flores dançando, cantando e tocando até piano. Todas as flores nessas histórias são como um acalento, e meu coração também quando está triste e sem forças se alegra por uma florzinha minha que começa a nascer e desabrochar. Flores pelo caminho sempre alegram meus passos, de uma pequenina plantinha pode nascer uma imensa felicidade. Bonito imaginar flores que cantam a noite ou no céu, anjos e crianças que escolhem florzinhas machucadas e as levam para o coro celeste. As flores na terra são como um pouquinho de céu, e nosso coração certamente pode ser esse jardim florido e cantante. Fico aqui florescendo meus olhos nessas leituras, deixando florescer meu coração na escrita, quem sabe ainda possa nascer em alguma letra, uma pequenina flor bailarina. 



sexta-feira, 16 de julho de 2021

Pensamentos poéticos: Guarda-chuva amarelo e galochas vermelhas

 


Quando pequena tive um guarda-chuva amarelo, lembro do som das pocinhas de águas da chuva que pulava com ele e das galochas vermelhas que nunca tive. Queria ter galochas, mas não sei por que não as tive, pulava as poças com outros tipos de sapatos, pensando nas galochas vermelhas e de como elas ficariam adoráveis com meu guarda-chuva amarelo. Ter aquele guarda-chuva era como habitar um sonho, uma espécie de proteção poética que eu tinha, presente da mãe, com muitos coelhinhos e cogumelos desenhados nele. Pensava que as pocinhas de águas eram portais, que a qualquer momento que eu colocasse meus pés em uma delas, entraria no céu e nas árvores que as águas chuvosas refletiam. Quando a chuva passava, eu amava olhar os passarinhos se banhando nas pequeninas pocinhas, era a poesia mais terna e doce todas aquelas asinhas festejando naqueles portais mágicos, eram as serenas delicadezas do interior. Cresci e percebi a falta que me fazia um guarda-chuva amarelo, e alguns anos atrás comprei um, ele tinha até uma coelhinha e um cogumelo também, sai com ele com os versos dançando em minhas mãos. Em um dia de chuva encontrei uma ruazinha com florzinhas amarelas no chão que combinavam tanto com ele, e percebi que ainda me faltavam as galochas vermelhas. Carlos Drummond de Andrade diz que temos saudades também do que não existiu, e que ela dói bastante, e eu concordo com ele, e não penso só nas galochas vermelhas que nunca tive quando menina, mas todas as outras saudades das inexistências que se bordaram em meu coração. Poderia ter minhas galochas vermelhas junto com meu guarda-chuva amarelo, mas não as tenho, não está mais chovendo, mas as chuvas irão voltar, e quem sabe com as galochas vermelhas eu enfim consiga entrar nos portais mágicos das pocinhas, imagina se o segredo para entrar nelas é a combinação de um guarda-chuva amarelo com galochas vermelhas? Um dia em um doce momento, encontrei em uma decoração de um lugar encantado uma galocha, só uma, sem o outro par, pensei se não seria um sinal para mim, uma galocha só como o sapatinho da Cinderela que permanece, será que uma fada deixou a galocha ali para me lembrar que preciso passar o portal encantado? 




Na verdade todos esses pensamentos resumem que tenho um guarda-chuva amarelo, que não tenho as galochas e já estou com saudades da chuva, de ver as gotinhas de chuva nos botõezinhos de rosa, as gotinhas da chuva mesmo, e não do regador. Alguma coisa sempre falta, e se não tivesse me faltado, não teria a poesia, não teria esse doce imaginário. Mas a poesia também está no guarda-chuva amarelo que tive, nos dias de chuva que regaram meu coração. A poesia está entre a presença e a ausência. Entre o que foi e o que não foi. Entre a falta e o transbordar. Nos passarinhos alegres nas pocinhas. Nas gotinhas de chuva nas plantas que sonham. No sussurrante som das águas dos pequenos fragmentos de chuva que caíram nos cílios um dia, nascendo palavras. Nos guarda-chuvas e nas galochas.