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sábado, 23 de junho de 2018

Alpha






Sempre me disseram que a lua era perigosa, e eu nunca acreditei. Diziam que ela ainda era mais perigosa para quem tinha a cabeça lunática e secreta, para quem guardava pensamentos enluarados dentro do coração. Uma coisa é guardar luares dentro da cabeça, outra coisa são guardá-los dentro do coração. De repente quando você sente seu palpitar, ele lança reflexos sobre ti, sua pele toda começa a exalar lua.
Olhei para a lua crescente pela primeira vez e ela me sorriu, formava um sorriso cheio de estrelas no céu, eu sorri novamente e respondi:
- Óh lua querida dos céus! Quem dera eu pudesse ter asas nos meus pés para chegar mais perto de ti.
Alguém, porém, ouviu a minha voz, e disseram-me:
- Esqueça a lua menina, ela é coisa de deusas que não existem mais.
A lua cresceu tornando-se cheia, eu a olhei pelas árvores, as raízes e os galhos não diriam a ninguém que eu olhava para o luar, mas alguém viu meus olhos e disseram-me:
- Esqueça a lua menina, ela é coisa dos lobos da floresta.
A lua foi ficando mais pequenina e meu coração também. Apesar disso, consegui escutá-la nas águas, o riacho não diria a ninguém que eu escutava a lua, porém alguém sentiu meu pensamento e meu escutar e disseram-me:
- Esqueça a lua menina, ela é coisa do espaço.
Mas não é fácil esquecer a luz quando ela já entrou em você, quando já iluminou todos os seus sentidos. A lua sumiu, e eu queria procurá-la. Será que eu podia sair à sua procura?
Fui, segui, fui mesmo assim, fui como quem canta nas florestas e encanta montanhas, queria achar o lugar mais alto para encontrar a lua. Achei um bom urso na floresta de pinheiros pelo caminho.
- Bom urso, você pode me ajudar a encontrar a lua? – perguntei.
O urso olhou para os céus e a lua novamente sorria, achei que era bom sinal, um jeito dela dizer que me esperava.
- Ajudo menina – respondeu o urso – Vou lhe mostrar a montanha para onde vou quando o inverno chega. Lá é tão alto que as estrelas fazem cócegas nos cílios quando adormecemos.
O urso como um bom amigo, me deu a mão e me guiou pela floresta, até avistar as montanhas.
- É lá menina, só não posso ir até lá com você agora, só vou para lá quando o inverno chegar.
Segui viagem com a lua cheia em meus caminhos, brilhante a iluminar cada pedrinha. Quanto mais subia a montanha mais estava perto da querida lua. Cheguei ao topo e as estrelas realmente faziam cócegas nos cílios, tal como o amigo urso havia falado. Mas a lua ainda estava distante.
- Óh lua querida, me dê uma chance de lhe encontrar, disseram-me que tu és coisa de deusas que não existem mais, de lobos da floresta e do espaço, mas sei que também é coisa de mim, já que no meu coração você está e ilumina tantos.
A lua com grande carinho soltou uma pequena pedrinha de si mesma e entregou para a menina, que emocionada por ter um pedacinho brilhante da lua, fez belo colar e guardou dentro do peito. A menina acabou adormecendo na montanha, tendo sonhos lunares e estelares. Quando acordou a chuva caía, e o pedacinho da lua continuava ali no seu colar.
Voltou então com a parte da lua. Quando chegou ainda gostavam de lhe dizer que tudo não havia passado de um sonho, que ursos não falam, que estrelas não fazem cócegas nos cílios e que a lua jamais podia dar um pedacinho de si mesma, que lua nem tinha pensamento para isso. Mas a menina já não mais se importava que ouvissem o que falava, que vissem para onde ela olhava ou que escutassem o que ela escutava em pensamento, ela não mais apagava nada de seus sentidos. Como uma deusa, como um lobo e como um espaço, ela havia se tornado alpha do seu sonhar.

2 comentários:

Graça Pires disse...

E esse bocadinho de lua ficará para sempre contigo Gaby, porque a lua é também dos poetas e este teu texto é um excelente conto poético. Adorei.
Uma boa semana.
Um beijo.

Bruna disse...

"Diziam que ela ainda era mais perigosa para quem tinha a cabeça lunática e secreta, para quem guardava pensamentos enluarados dentro do coração." - aaaaah, que lindo, miss Gaby!