quinta-feira, 7 de julho de 2016

A concha mágica

                  Era uma vez uma sereia chamada Azul, que tinha esse nome por conta de seus cabelos azuis. No meio de seus cabelos continham pequenos pontinhos brilhantes, olhar para o cabelo da sereia era olhar para um céu estrelado cheio de constelações, embora ninguém ali no oceano soubesse o que era um mar estrelado, mas digo a você para conseguir imaginar o cabelo da Sereiazinha, e deixo essa ilustração feita de aquarela das águas do mar também para ajudar, que é como eu imagino a Sereia Azul.


                Azul era a princesa filha do rei, do reino Concha Mágica, encontrado em um oceano distante, fundo, mas ainda sim claro e cheio de belezas e criaturas lindas. Todos do reino Concha Mágica jamais tinham ido à superfície, nem sabiam que ela existia, e assim se permaneceu por um longo tempo, acreditando-se na existência apenas do mar, daquele imenso e vasto oceano, sem saber de céu.
                Um dia a sereia Azul estava em seus passeios pelas águas, e começou a pensar no que seria se subisse ao invés de nadar para os lados ou para baixo, e nos pensamentos resolveu subir, achou que nunca ia chegar, demorou tanto tempo que achou que não existia nada de diferente além de águas, foi quando começou a ver uma luz bem acima, nadou em direção da luz, e quando chegou viu um azul imenso sob sua cabeça, da cor dos seus cabelos, era noite de céu estrelado, e esse foi o primeiro contato que a Sereiazinha teve com a superfície.
                Azul começou a fazer isso todos os dias, subia até chegar lá em cima, e cada vez via um céu diferente, de cores diferentes, começou a imaginar que era outra espécie de mar, mas as nuvens e as estrelas eram diferentes, aquela enorme bola redonda e brilhante que aparecia de dia, e outra prateada que aparecia a noite não pareciam ser do mar. Assim, Azul viveu seus dias apenas apaixonada pelo céu, sem saber o que era.
                Os passeios da Sereiazinha se tornaram mais demorados, e o rei começou a desconfiar, e mandou alguns peixinhos a seguirem, mas os peixinhos não conseguiram subir tanto, mandou polvos, estrelas do mar, águas-vivas, mas ninguém conseguiu subir tão alto. E todos diziam ao rei:
- É impossível seguir para onde sua filha vai, é muito alto!
                Foi então que o rei decidiu seguir sua filha, colocou uma capa azul do mar para se camuflar, e seguiu a princesa, até dar com o mesmo céu estrelado do primeiro dia, avistou sua filha sentada em uma pedra, em estado de sonho a olhar para o céu. Mas o rei era diferente da filha, tudo que era diferente, imenso, maior que si lhe causava grande medo ao invés de paixão, julgando ser o céu algo muito perigoso, decidiu decretar que era proibido nadar mais alto, não queria que outras pessoas descobrissem aquilo.
                E Azul fora proibida de sair sozinha, e isso deixou a princesa enlouquecida, estava tão apaixonada pelo céu, que queria subir e ficar admirando, já não comia, não sorria, e seus cabelos cada vez iam ficando mais claros. O rei achou que a filha estava ficando louca, e resolveu deixá-la em seu quarto, dormindo em sua cama de concha, assim, chamou uma grande sereia feiticeira, que colocou no pescoço da sereia um colar de pérolas, fazendo a sereia adormecer.
                Os dias se passaram, e o sono não diminuiu a tristeza da princesa, que definhou em seu adormecer, se transformando aos poucos em uma concha do mar, quando o rei viu a concha no lugar da filha, se colocou em prantos, caiu em uma profunda tristeza de ter proibido a filha de ir à superfície, de não conseguir entender e trazer a filha de volta. O rei enterrou a concha nas areias profundas, perto de onde estava enterrada sua esposa, e pediu à feiticeira que o fizesse adormecer, pois viver seus dias seria penoso.
                Assim, o rei adormeceu e a feiticeira, que não era ruim, mas que também não era boa, assumiu o reino. Quanto à concha que Azul havia se transformado, que era tão linda, pintada com um pouco de céu e de mar, saiu de onde estava enterrada, queria sair dali, buscar a superfície, ir ao céu, mas conchas nunca vão ao céu, ela acabou parada encalhada em uma praia, esperando que um dia alguém a encontre, e quem encontrar, quem ouvir sua música, talvez ache um jeito de poder ser céu, e ser mar.


Um comentário:

Graça Pires disse...

Não sei por que razão eu me enterneço com as histórias que contas. É que consigo regressar à minha infância e imaginar a minha mãe a contar-me estas histórias maravilhosas. Que beleza!
Um beijo.