sexta-feira, 24 de maio de 2013

O Ratinho e Clara.



Era uma noite chuvosa, as gotinhas faziam barulho no telhado, a lareira estava acesa e a moça distraída em uma leitura, distração que durou pouco até o pai chegar.
- Minha filha, está um tempo terrível, molhei todas as minhas botas – disse um senhor tirando uma capa de chuva e se sentando em uma cadeira para tirar as botas encharcadas.
- Papai, já lhe disse como é perigoso sair em dias assim para o senhor – disse a moça delicadamente levando uma toalha para que o pai pudesse se secar – precisa agora tomar um banho quente, vá logo e sem demora.
- Tudo bem, mas eu precisava terminar aqueles pães para amanhã, mas agora vou subir e tomar um banho, tomar uma sopa quente e me deitar – disse subindo as pequenas escadas que levavam para cima.
Era uma casa simples, e só moravam os dois, Clara como se chamava a moça, havia perdido a mãe, não gostava muito de se lembrar, mas sabia que ela estava em um lugar muito bonito em algum canto. Lembrando-se da sopa, foi rapidamente para a cozinha preparar a refeição quentinha para um dia tão frio e de chuva.
Ao deixar a sala ele saiu de um pequeno buraquinho na parede, morava ali não se sabia a quanto tempo e suspeitava que a moça sabia, ela não o expulsava, era bondosa a moça, sempre dizia que se fosse o único ratinho ali, jamais o deixaria ir, agora se tivessem muitos, ela teria que construir algumas casinhas em outros cantinhos para eles, afinal precisariam ter uma casa ou um lugar para viver em algum cantinho. Ele gostava da moça, tão cuidadosa com seu pai, e sempre lendo livros bonitos. Tão bonita Clara, como a clara luz da manhã. Ela era sua amiga, e nos sonhos mais bonitos do ratinho, ele desejava que fosse um amigo também para ela.
Caminhou até a lareira com um toquinho de vela que Clara havia dado a ele, se pudesse dizer sua língua falaria obrigado, ele gostava tanto de velas, elas sempre iluminavam alguma pequena coisa no caminho, algum pequeno detalhe bonito, debruçou a vela sobre a lareira que logo acendeu, e foi até a mesa onde Clara estava lendo e começou a iluminar o livro, como era bonito, sempre aquela história de mágicas a dar esperança a um coração de ratinho abandonado, todos certamente iriam rir se soubesse, mas ele se sentia como um daqueles personagens, talvez tudo era um livro e sua história também talvez estivesse escrita em um grande livro vermelho, com letras bem bonitas, em uma estante alta cheia de pó.
- Ora ai está você! – disse chegando à mesa onde o ratinho olhava o livro, ele não se assustou, ninguém se assustava com a voz de clara, uma voz doce, leve e mágica, os cabelos castanhos enrolados e o vestido puído, mas ainda assim lindo.
Ela se sentou delicadamente na cadeira perto da mesa onde o ratinho estava.
- A sopa está esquentando. Gostou do cheiro que vem da lareira? Peguei no chão alguns toquinhos de madeira molhados pela chuva, eles estavam perto de flores da tarde, já as viu? – perguntou ela – deve sair pouco daqui, medo dos grandes animais não é? Medo das pessoas, eu também não gosto muito de sair, prefiro ficar com meus livros, mas se há flores e árvores bonitas, e o céu tão acalentador eu preciso sair de vez em quando não acha?
O ratinho a observava e queria tanto poder responder.
- Às vezes me esqueço que você não fala minha língua, mas tenho certeza que me escuta e me entende, e me responde do seu jeito, eu quase posso escutar – disse ela sorrindo – gosto de ter um amigo como você, e papai também não se importa, trabalha tanto, ainda bem que eu sei fazer tortas muito bonitas e saborosas para ajudá-lo não? Eu queria mesmo fazer tanta coisa, escrever seria uma boa ideia, ter um livro, viajar por ai para encontrar alguma coisa além, tudo não pode ser só isso, e claro que levaria vocês dois.
O ratinho foi para mais perto dela, ela fez carinho no pequeno bichinho e lhe deu um pedacinho de queijo, que ele comeu em duas dentadas.
- Enquanto a sopa esquenta, vou lhe contar essa história que estou lendo – disse ela abrindo o livro e começando a contar uma história distante, de algo que ele não sabia se existia, mas que seria tão bom se existisse, que seria tão bom que pudesse levar ele, um ratinho abandonado para lá, mas Clara disse que o levaria em sua viagem de algum dia, e como podia se sentir só com ela ali, com seus livros, com tudo.

A lareira estava com o fogo crepitando, levando um pouquinho o cheiro das flores, o cheirinho da sopa já estava chegando em seu nariz, a história quase terminava, o pai de Clara estava descendo as escadas, ela fechou o livro, os dois forem comer a sopa com pãezinhos deliciosos, e o ratinho olhou a chuva que mansamente caia nas janelas, teria uma noite muito boa. 

8 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

sempre muita ternura e imaginação nos seus contos.
bom fim de semana.
beijo
:)

BIA disse...

Seu texto parece cenas de um filme Gaby, lembrou-me um bom filme com sentimentos tão verdadeiros.
Bjs :)

Bah disse...

Olá! Gostei do seu cantinho... vc quem desenha essas imagens?

Kisu!

Gaby Soncini disse...

Olá Bah, sou eu sim que desenho, pelo menos tento rs.

Obrigada pela visita!

*Escritora de Artes* disse...

Um conto cheio de ternura e encantamento...

Bjos

Lucian Rodrigues Cardoso disse...

Que texto gosto de ler, tal como fosse narrado na voz de Clara! Beijos e parabéns!

aline disse...

eu adoro os seus contos, muito!

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Palavras assim,
nos dão vontade
de correr
para abraçar
nossos filhos...


A vida é feita
dos sonhos que nos habitam.