sábado, 1 de dezembro de 2012

A Coruja e o Beija-Flor.



Um pequeno beija-flor em um dia de primavera, foi beijar uma flor na ponta de um galho de uma grande árvore, por mais grandiosa que a árvore fosse, e por mais que ali naquele galho estivesse pousada uma linda coruja de tamanho considerável, o pequeno beija-flor de tão apaixonado por aquela pequena florzinha só viu ela, e assim batendo suas asinhas com todos os sopros do vento, chegou nas pétalas macias, cheirosas e suaves da flor.
A coruja observou a cena quietinha, intrigada pelo beija-flor ter chegado ali tão perto dela, os outros pássaros não gostavam muito de corujas, na verdade ela havia conversado pouco com outros pássaros.
- Vejo que essa flor deve ser muito especial para você – falou a coruja – a vê todos os dias?
O beija-flor como tirado de um sonho em que só existia ele e a flor, olhou para frente e viu ali a linda coruja.
- Perdão, eu não tinha te visto, na verdade eu vi essa flor pela primeira vez hoje.
- Entendo, há algumas coisas que deixam a nós sem olhos para outras quando a vemos pela primeira vez.
- Hoje faz um dia tão lindo, vi tantas flores bonitas, mas essa talvez por estar sozinha chamou muito ao meu olhar, mas vejo que não é a única a estar sozinha aqui nessa árvore.
- Como você, vi essa árvore hoje pela primeira vez, achei-a tão linda e grandiosa e estou pensando em como seria um lugar bom para morar, sei que deve vir muitos pássaros aqui, mas não há problema se eu ficar quieta, às vezes gostaria de ser assim como você beija-flor.
- E porque serias como a mim se já és como você?
- Você é pequenino, azul com muitas outras cores, beija as flores, encanta de uma forma pequenina e singela aos corações, e bate suas asas como mágica, e se quiser se esconder deve ser muito fácil, pode até entrar e se esconder dentro de uma flor, ficar ali em um mundo próprio.
- Mas não entendo quando diz que encanto, olho para você e não consigo pensar em nada mais encantador, quando menor minha mãe me dizia da beleza das corujas. E mágica? Seus olhos são como uma grande mágica, porque se esconder?
- Há dias que tudo que você quer é se esconder, você não consegue muito equilibrar e voar suas próprias asas, você sente que poucos gostam de você, mas eu sou uma coruja, nos acostumamos com isso, de ser olhadas sempre com olhos estranhos.
- Nem todos olham assim.
- Eu sei, é isso que ainda me faz voar.
O beija-flor pensando um pouco no que a coruja falou, pensou em como fora importante ter ido ali naquela flor e a conhecido, sentiu uma solidão no peito daquela coruja, e se sentiu melhor de ter conversado com ela.
- Conhece o jardim de papoulas? – perguntou o beija-flor.
- Não, nunca estive lá, na verdade vou a poucos lugares, não gosto muito que me vejam.
- Ora, mas precisas ir lá, posso vir aqui amanhã e você vai comigo, eu lhe mostro o caminho, sei que voamos diferente, mas podemos achar uma forma de voar juntos até lá.
- Podem não gostar de me ver voando com você.
- Sempre hão de não gostar e gostar das coisas, isso não deve te impedir de ser coruja como é, ir até jardins e também voar nas noites mais escuras.
- Virá mesmo amanhã e me mostrará o jardim?
- Palavra.
- Você gosta de ser beija-flor? – perguntou a coruja meio encabulada.
- No começo não muito, não gostava de ser tão pequeno, e às vezes não dá para escutar o próprio coração de tão leve, é como se você tivesse um dente-de-leão voando no lugar do coração, muitas vezes parece que você é feito de ar – disse o beija-flor com olhinhos de lembranças – só que hoje eu gosto, gosto de ser assim, leve como o vento, pequeno, há coisas que precisamos transformar em nossa preciosidade.
A coruja deu um sorriso com o bico, e esperou no dia seguinte o beija-flor que viera como havia prometido, ela conheceu o jardim das papoulas, e se sentiu como um beija-flor, apaixonada pelas flores, embora ainda fosse coruja. Com o tempo ela era tanto coruja e se orgulhava disso, e como a amizade entre ela e o beija-flor cresceu, ambos começaram a ter um pouquinho um do outro, a coruja voando se sentia leve como o vento, coração de dente-de-leão voando no peito, e o beija-flor às vezes sentia um peso escuro da noite, e ouvia as batidas do seu coração, e assim os dois eram mágicos, eram eles, eram um pouco de tudo que viam e do coração do amigo.

8 comentários:

Jason Jr. disse...

:)

O Profeta disse...

Inventei a ironia numa toada de vento
Roubei as asas a uma gaivota azul
Colei-lhes um poema cheio de penas
E enviei-o para uma tonta do sul

Inventei um mar numa bola de sabão
Roubei uma corda forte e boa
Atei um rol de mágoa à mesma
E afoguei-as nas águas de uma lagoa

Bom fim de semana


Doce beijo

BIA disse...

✿¸¸.•*¨*•♫
Muito lindo Gaby!!! Em um mundo com tantas guerras, discórdia e desarmonia encontramos a luz nas pessoas que espalham belas palavras e ações pacíficas!!!
♫•*¨*•.¸¸✿
Bjs :)

*Escritora de Artes* disse...

Oi querida Gaby,

Lindo e comovente texto...parabéns!

Bjos

Nina disse...

A coruja e o beija-flor para exemplificar um fato óbvio: apesar das diferenças, somos da mesma espécie. Quem nos dera que essa união deixasse de ser simbólica e adquirisse prática. Ao invés de só ficar na fábula.
Abraços, moça.

Alice disse...

Gostar de ser quem a gente é, foi isso que em mim fico.

Tuas percepções ♥

Alice disse...

*ficou

Nega Flor disse...

Tem dias que a gente carece de ver a nós mesmos com o olhar puro do outro. Porque as vezes nosso olhar está tão cheio de medos e mágoas que não consegue ver o que o outro enxerga tão facilmente. Há verdades que precisamos ouvir, mas do que saber.
Lindo conto Gaby. Lindo como o seu enorme mundo pequeno dentro do coração.