sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A Moça das Lágrimas.


Tentei escrever um poema para contar a história da moça das lágrimas, mas se tratando de tanto chorar, as rimas foram em outro lugar buscar, um choro mais doce, do que o tão salgado chorar da moça.

Ela parecia ter um mar dentro dos olhos, seu olhar parecia oceano em dia de tempestade, quando chorava molhava toda a cidade.
“Pobre moça das lágrimas!” Todos diziam. “Como deve ser viver chorando?” Todos perguntavam.
Quem costuma viver sorrindo, olha difícil pra quem vive chorando, quem vive chorando, acha estranho viver sorrindo.
No fundo a moça também tinha sorrisos, daqueles bem escondidos, que as ondas cobrem por completo, não deixando se mostrar.
No fundo, naufragada por tanta água de olhar, a moça não conseguia enxergar que sorria.
Profundamente, a moça afogada por tanta agonia, por tanto tentar e não conseguir parar de chorar, deixou de acreditar no sorriso.
Dentro do seu coração tão salgado, havia espaços doces, quando tudo se mistura fica difícil mesmo encontrar, quando tudo se encontra, fica difícil misturar.
Ela parecia chorar os choros do mundo, parecia estar eternamente em um chorar profundo. Todos que chegavam perto dela, começam a ter vontade de lagrimar, e chorando todos saiam correndo de perto dela. “Aquela menina propaga tristeza!” Exclamavam.
Ninguém percebe, ninguém vê, nem eu, nem a moça, ninguém, ninguém… que ela chora, ah ela chora, porque queria ter apenas alguém, apenas alguém.
Tentei me afastar das rimas para escrever a história dela, mas não tem jeito, as rimas também tecem tristes histórias, talvez no intuito de as fazer belas.
Um dia cheguei perto dela, segurei a vontade do choro, suspirei fundo, respirei e estendi minha mão. As lágrimas pararam por um segundo, ela me disse “Todos que chegam perto de mim tem vontade de chorar”, eu disse assim para ela "Talvez todos tem vontade de chorar porque só conseguem ver realmente o choro”. Ela me olhou por alguns segundos, talvez minutos, senti no coração horas, as águas das lágrimas quase em meus joelhos, e de repente a moça ficou só com olhos marejados, meio encantados talvez com meu comentário, e disse “Ninguém nunca viu em mim outra coisa”, de fato ninguém via, nem mesmo ela.“Mas eu vi um sorriso”. E ele tão tímido começou a aparecer, foi como luz entrando pelos olhos, escorregando pela face e parando nos lábios, o sorriso tão bonito, ah quem o visse jamais diria que aquela moça um dia chorou, o sorriso era tão sorriso de ser!
Tem vezes que é difícil ver o próprio sorriso, quando a gente olha a vida por um lado só, e seguindo nosso olhar, os outros olham por nós. Mas às vezes um único olhar diferente, é suficiente para acalentar o nosso.
A moça das lágrimas chorou e vai chorar muito ainda, mas nos intervalos dos choros há sempre um sorriso de sol maior.

4 comentários:

A.S. disse...

Belissimo texto, uma doce melodia escrita com o sal das lágrimas...


Beijos,
AL

Fred Caju disse...

Excelente, bem melhor que escrever um poema sobre.

ONG ALERTA disse...

As lágrimas um dia secam...beijo Lisette.

Pri C. Figueira disse...

Que saudade daqui...

Um grande beijo.