sábado, 17 de setembro de 2011

Emprestando um arco-íris.


Selene tinha uma tempestade mais dentro dela do que a que as nuvens formavam no céu. Ela caminhava a passos largos, com o guarda-chuva azul semi-aberto na mão, os cabelos ao vento se misturavam com outros na multidão de pessoas, e os olhos estavam quase desabando junto com o céu.

Chegou enfim no ponto de ônibus, talvez seus pensamentos, alguns deles pelo menos, fossem atendidos afinal, o ponto estava vazio e era tudo que ela queria, ninguém que pudesse ver suas lágrimas se elas desabassem ali naquele instante. E que chuva era aquela que não caia nunca! Se pelo menos caísse e molhasse seu rosto, poderia disfarçar a chuva que caia do céu, com a chuva que caia do seu olhar.
O vento foi aumentando, um frio de gelar bateu em seus cílios, as mãos escorregadias pegaram aquele livro dentro da sua bolsa, o motivo de suas tantas lágrimas poderiam acabar se entrasse rapidamente dentro de uma outra história.
Tudo tão cinza, tudo tão escuro, Selene começou a se confundir do lado em que estava, se no lado de dentro ou se estava no lado de fora, com toda aquela chuva prestes a cair. Algumas pessoas passaram apressadas do outro lado da rua, e Selene continuava satisfeita de estar sozinha ali.
Não percebeu de primeiro momento um moço sentando em um dos bancos, ele carregava algumas folhas em uma pasta grande, pareciam ser desenhos, a pasta ocupou outro banco vermelho daquele ponto.
Selene desviou o olhar, o moço percebeu a moça olhando para as letras que não lia daquele livro, percebendo o olhar dele tão atentamente fechou o livro e abaixou ainda mais o olhar, um trovão rompeu o silêncio, e algumas gotas começaram a cair fazendo os paralelepípedos da rua começarem a brilhar, as gotas ainda não eram suficientes para disfarçar.
- Pelo jeito vai ser uma chuva daquelas – disse o moço em um tom alegre.
Selene não respondeu, continuou com os olhos abaixados e apertou o guarda-chuva azul entre as mãos.
- Gostei dele, é bom carregar um guarda-chuva desses por ai.
Mais uma vez o silêncio dela.
- Você troveja e chove por dentro também?
Com essa pergunta ela o olhou, quem era aquele moço para saber de chuvas interiores?
- Eu pensei que seria tudo tão diferente, acho que não encontro mais lápis de cor – respondeu Selene.
- Lápis de cor? – perguntou ele.
- É, para pintar novamente um arco-íris dentro de mim.
- Só tem lápis cor de tempestade?
- Nos mais diversos tons de cinza.
Ele abriu a mochila que carregava junto com a pasta, e tirou alguns lápis coloridos de dentro dela, as sete cores do arco-íris ele separou, guardou os outros novamente dentro da mochila e estendeu a mão para Selene dizendo:
- Toma, eu te empresto os meus, para você pintar seu arco-íris novamente.
- E se eu não conseguir?
- Se não conseguir ainda teremos várias tempestades como esperança de um novo arco-íris se abrir.
- Esses lápis de cor foram tão literais – disse ela – foi só um modo de dizer, mas obrigada, de verdade.
- Você que pensa que são literais - disse ele - são meus preferidos.
O moço olhou para a extensão da rua no mesmo instante que a chuva apertou, um ônibus chegava, e ele olhou para Selene e abriu um sorriso, ela não sabia se sorria ou se chorava com a partida tão repentina do rapaz que só disse um “até mais” e foi correndo para dentro do ônibus, ainda na janela embasada do veículo ela pode ver ele ajeitando suas coisas junto dele, de lá um último olhar, ele acenou e fez um desenho no vidro embasado, talvez o motorista até soubesse que tinha que parar por um instante, o instante do desenho, uma nuvem com um arco-íris atravessando. E o ônibus partiu.
Selene sentiu algumas gotas molhando levemente seu rosto, vindas com a brisa do vento, mil folhas pequeninas de uma árvore da rua foram para seus cabelos, as folhinhas um tanto vermelhas, o cheiro de chuva, ela suspirou fundo e virou o olhar, chovia de um lado da cidade, do outro mais adiante em que o ônibus virou, um arco-íris brotava do céu. As gotas já eram suficientes para disfarçar, mas Selene já não mais queria, havia um arco-íris dentro dela, e a chuva era tão bonita. Será que um dia encontraria novamente seu desenhista de arco-íris? Não soube responder, e teve até medo da resposta, o que não faz com nosso coração um momentinho de instantes…Talvez ela encontraria se seguisse algum arco-íris dentro de uma chuva de seu coração.

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