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sábado, 20 de agosto de 2011

Costurando versos no coração do outro

Melodia de versos era o que sentia quando via aquela moça, nos dias de sol ela colocava sua mesa de costurar embaixo do ipê, tem árvores que parecem suspirar poesias, e aquele ipê era uma delas. Costurava a moça uma cortina azul, ou será que era uma colcha? Na verdade nunca reparei muito bem, só sabia que era azul como céu. Tinha um gato ali, ele era um tanto cinza, mas só de olhar já se sabia que um dia ele foi preto. Ele brincava com as bolinhas de linha da moça como se nunca tivesse perdido cor, como se fosse um eterno gatinho. Não sei o que me passa quando a vejo, serenidade, solidão, tristeza, doçura… Os sentimentos ficam bagunçados, tento pensar na história dela, tento pensar no porquê da costura azul, no porquê da costura debaixo do ipê. Quando chove ela costura dentro? Quando o céu desaba ela não costura? Ela não olha muito ao redor, nem sei se um dia me viu, tenho vontade de dizer que a colcha(ou cortina) dela é linda, tenho vontade de falar algo, mas não falo, fico em silêncio. E esse silenciar é tão amargo quanto doce. Tem pessoas que só vemos, e nenhuma palavra sai. Tem pessoas que mal conhecemos, mal sabemos, mas deixam e tiram tanto de nós. Só de olhar sinto uma melodia de versos.

7 comentários:

Helcio Maia disse...

Há silêncios feitos de palavras mágicas, que não precisam de pronúncia para serem anunciadas.

AC disse...

Ao ler o texto lembrei-me do título de um livro de Hubert Reeves: "Um pouco mais de azul", que apela a um olhar para lá de nós...
A sensação foi grata.

Beijo :)

Rute Vieira disse...

eu acho que ela borda esse céu azulzinho pra quando chover, ela ter seu próprio céu dentro de casa.

lindo, Gaby! bjs

Andrea de Godoy Neto disse...

há cenas que despertam um mundo dentro da gente... e o teu olhar, Gaby, é de uma doçura ímpar, parece que tudo fica mais encantado

saudades, beijosss!!

O Profeta disse...

Um barco parado no cais de espera
Amarras soltas do frio ferro
Uma gaivota adormeceu sem penas
Uma criança chora no meio do aterro

Cheio de penas amarro a alma
Uma saudade arrocha meu peito
Sou um caçador de nuvens breves
Um romântico sem ponta de jeito

Um barco de papel perdido do norte
Roseira plantada num campo de pedras nuas
Uma casa perdida da sua cidade
Um labirinto feito de mil e muitas ruas


Doce beijo

Luna Sanchez disse...

Adorei isso, que belo cenário, que texto doce!

Um beijo.

d. disse...

Nossa, que coisa mais doce... é verdade, existem mesmo pessoas assim, que fazem parte de um pedacinho da nossa vida e nem imaginam. e, se o silêncio existe, é porque o essencial mesmo não precisa ser dito. deixe que seja doce, só doce, sem amarguras :)

gostei muito daqui, Gaby. bjinhos