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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Cesta.


Na cidadezinha de Luzmi existia uma pequena moça que usava um chapéu e um vestido de crochê, na sua cintura sempre carregava uma flor e seus pés descalços sempre tocavam no chão. A moça em alguns dias do ano levava consigo pelas ruas empurrando como um carrinho de bebê uma cesta maior que ela, era difícil subir as ladeiras com aquela cesta de carrinho, mas ela nunca desistia até chegar ao parque, ali tinha um lago com um gramado bem extenso com muitas árvores e banquinhos, passeava por todos até chegar à beira do lago, ficava um tempo olhando pra ele como se quisesse se perder em suas águas, alguns olhavam pra ela e estranhavam a cesta, o que teria ali dentro daquela cesta maior que a pequena moça.Depois de tanto olhar sorria para o lago e fazia um gesto como se fosse pegar a água e como se colocasse algo na sua cesta soltava a mão no seu interior, fazia isso com o gramado, com as árvores, com as flores, com os banquinhos, com o céu, com o ar, com as nuvens, até as calçadas e casas, quando sua cestinha ficava lotada voltava para casa.
Um dia a moça estava perto do que se poderia dizer de pequena montanha fazendo o mesmo gesto quando um garoto se aproximou dela curioso:
- Você sabia que as pessoas te chamam de louca? – perguntou o garoto.
- Acharia estranho se elas não chamassem – disse a moça sorrindo.
- Mas você é louca?
- Depende do ponto de vista, no caso deles eu sou sim.
- O que você carrega nessa sua cesta? – continuou o menino muito curioso.
- Carrego muito.
- Ela está vazia – disse o garoto num tom irônico.
- Você tem certeza? – perguntou ela olhando bem fundo nos olhos dele.
- Absoluta não se pode ver nada ai dentro.
- Mas claro que não se pode ver, mas existe aqui dentro um pouco da água do lago, do gramado, da cidade, de alguns outros lugares que eu fui que vivi...
- Continuo afirmando que não tem nada ai dentro.
- Mas pra mim tem.
- São sonhos?
- Também e sonhos realizados.
- Por que a cesta é maior que você?
- Eu vejo sempre algo maior que eu e fora da minha compreensão, e achei justo uma cesta maior.
- É um gesto estranho sabe, você poderia levar tudo isso somente no seu coração não acha?
- Eu gosto da cesta ela não me deixa esquecer.
- Esqueceria se guardasse só no seu coração?
- Minha mente um dia pode deixar de funcionar, eu tenho medo de esquecer e a cesta pode sempre me ajudar a lembrar.
- Tem vezes que esquecer é bom.
- Mas pra mim seria terrível esquecer tudo que eu vivi, por isso preciso da cesta.
- Sempre uma cesta maior?
- Sempre.
- Sua mente pode sim esquecer, mas e seu coração?
- Não sei.
- Pense nisso moça, tem coisas que o coração nunca esquece.
Dizendo isso o garoto deixou a pequena moça sozinha com sua cesta, ela pensou mas teve medo de abandonar a cesta e sua mente de repente a deixar na mão, ficou com a cesta caminhando e guardando tudo mesmo, sempre pensava no que o garoto tinha lhe falado, sentia que estava errada, talvez um dia quem sabe quando o medo abandonasse seu coração ela dispensaria a cesta, sua proteção, enquanto isso não chegava ela levava consigo sempre uma cesta maior, a moça da cidade de luzmi que tinha medo de esquecer.

7 comentários:

Rafael disse...

"Eu gosto da cesta ela não me deixa esquecer"
Achei bonito isso...
bjs

Vivendo na Eternidade disse...

"A moça da cidade de luzmi que tinha medo de esquecer."

Fantástico o texto. Talvez só percebamos o poder de nossos corações quando temos a capacidade de usá-lo com totalidade. A cesta representa o desejo que ela tem de utilizar seus sentimentos. Uma linda metáfora da vida e de suas simples e inesquecíveis características. Mais uma vez, nos surpreende de um jeito único.

Grande abraço, Gaby.

Alice, Carter.

Lucas Rafael Jardim disse...

Maninha querida,

Vc tem um dom raro! Escreve com uma singeleza, uma pureza, que é difícil encontrar nos escritores convencionais. Você é desprovida daquele ranso literário que permeia várias obras que vemos por aí...
Um imenso beijo e sucesso nessa carreira!

Rá ~° disse...

Fantásticoo o textoo!

Sempre bom passar por aquii... *.*

Grande Beijo

Marina disse...

As lembranças são nossas maiores jóias. Nosso talismã. Eu também não me arriscaria a perdê-las.

Beijos!

Rita Apoena disse...

Ai que orgulho dessas meninas, gente! Como eu sou distraída, não sabia que tu escrevia assim não! :D :D

Alice disse...

Gaby,
a moça da cidade de Luzmi vai descobrir ainda, que até a cesta ela pode guardar no coração e não esquecer. E talvez, esse medo de esquecer é que a fará sempre lembrar das coisas vividas, coisas bonitas, coisas todas pulsando dentro do coração.

Sua simplicidade me encanta a cada dia!
Beijo e abraço! ;*